A crise EUA-OTAN e a guerra na Ucrânia
A guerra na Ucrânia desencadeou crises, confrontos e enormes divisões em todas as forças políticas, tanto da direita quanto da esquerda. No campo da burguesia europeia, estão, de um lado, aqueles que querem acelerar a escalada da guerra e aumentar os orçamentos militares; do outro, aqueles que acreditam que uma solução diplomática ainda é possível. Nessa situação, a luta entre sistemas — o regime capitalista versus o chamado regime socialista — fica obscurecida e, sem essa evidência complica-se a tomada de uma posição sólida nesse conflito, pós-desintegração da URSS, sobretudo se as esquerdas europeias “russofóbicas” não avaliam dialeticamente o processo desigual e combinado de estruturas do ex-Estado operário soviético na Rússia atual. Mesmo com o fim da URSS, o capitalismo continua sua guerra, agora contra a Rússia, por meio do instrumento militar representado pela OTAN e seus 32 países membros.
Repasse histórico sobre a criação da OTAN contra URSS
Em 4 de abril de 1949, a OTAN foi fundada com o objetivo preciso de derrubar a URSS. A OTAN é a segunda organização militar para a defesa de um sistema em crise. A OTAN não defende os interesses particulares de nenhum país, exceto aqueles que compartilham relações produtivas e comerciais baseadas na propriedade privada, ou seja, o sistema capitalista. A URSS, por outro lado, não somente se opunha com um sistema baseado na propriedade coletiva e no planejamento econômico, mas saía da segunda guerra mundial, fortalecendo e expandindo a sua influência para os países do Leste Europeu; e no 1º de outubro desse mesmo ano, também se incorporou ao mundo socialista a China.
A relação entre sistemas, durante todo esse período, consistiu numa guerra de consolidação de áreas de influência. Assim, teremos um controle ferroviário sobre os países europeus; com a instalação de bases militares em território europeu, como na França; com a implementação do Plano Marshall; e com as estruturas clandestinas, como a Operação Gladio, que operava sob o controle da CIA. Idêntico a esse corredor no Japão e na Coreia do Sul. A URSS estendeu sua influência na África apoiando a luta anticolonial, e no Oriente Médio este período de “guerra fria” foi também um período de crescimento contraditório. Os avanços tecnológicos encontraram desemboque nas política keynesianas, com a implementação de medidas econômicas que transcendiam o capitalismo e, em grande medida, correspondiam ao Estado Operário. As sociedades capitalistas tiveram um período de crescimento e estabilidade que durou até os anos 80, e agora sofrem um período de decadência com as políticas neoliberais.
A URSS, mesmo passando por um período de regeneração parcial, sobretudo na economia e em relação com o processo de revolução mundial, apresentou graves problemas degenerativos evidentes no corpo burocrático que dirigia o Estado operário (EO). A falta de preparação marxista nos PPCC dos Estados Operários (EEOO) desenvolveu o interesse privado de casta, que determinou a queda dos EEOO da Europa Oriental sob a influência do imperialismo e, em última instância, a dissolução da URSS. A própria URSS, no período posterior à sua dissolução foi invadida por assessores enviados pelo imperialismo ianque e pelo FMI, que reorganizaram aparatos governamentais sobre bases capitalistas. No caso específico da Ucrânia, a burocracia corrupta fez concessão ao imperialismo que reestruturara o exército, a partir da década de 90, e que organizara revoluções coloridas para acabar com o que restava do EO. Para isso, o imperialismo contava com a incorporação das repúblicas soviéticas do Báltico, com a revolução colorida triunfante da Geórgia, com várias outras revoluções coloridas e com a prova final que foi a guerra contra a Iugoslávia.
Ucrânia
A insurreição cruenta da Praça Maidan em fins de 2013 foi realizada pelos setores marginais organizados em batalhões nazistas e armados pelo imperialismo, juntamente com os franco-atiradores georgianos, cuja coroação começou em 2014 com a expulsão de Ianucovich e a instalação do governo designado pelos Estados Unidos na pessoa de Victoria Nuland. Tal conspiração se revelou após a filtração das comunicações telefônicas de Nuland com a embaixada dos EUA na Ucrânia. Nuland ficou bastante satisfeita com a nomeação de Yaseniuk, o “nosso homem”, como primeiro-ministro, e Klishco como administrador de Kiev. E os europeus? “Que se azarem!”.
Havia chegado a hora de ajustar contas com o socialismo. A campanha militar contra a Rússia tinha que estar baseada em provocações; a incorporação à OTAN da Suécia e da Finlândia, países limítrofes com a Rússia; sanções econômicas de todos os tipos, exclusão da Rússia de campeonatos olímpicos e de futebol; agressão criminosa contra as populações russas de Donbass, por fim, uma ação direta de guerra, para explodir o gasoduto Nord Stream, que fornecia gás em abundância e a bom preço para a Alemanha e a Europa.
Na primeira fase da guerra, que decorreu de 2014 a 2022, a Rússia manteve uma posição de observador, buscando vias diplomáticas para diminuir o conflito. A busca por acordos diplomáticos entre a Rússia e a OTAN revelou que a OTAN procurava humilhar a Rússia. Nas falidas negociações de paz de dezembro de 2021, Stoltenberg, seu secretário-geral, declarou publicamente: “A Rússia queria menos OTAN e nós lhe demos mais OTAN”.
Em fevereiro de 2022, os nazistas ucranianos intensificaram os bombardeios contra as populações de Donbass. Nesses dias, após uma reunião do governo russo com todos os ministros e a participação dos altos comandantes do exército, transmitida ao vivo pela televisão russa, decidiu-se que, naquele momento, era necessário intervir militarmente com uma “Operação especial”.
Os primeiros passos da operação, tinham como objetivo exercer pressão militar para que o governo ucraniano fosse obrigado a sentar-se na mesa das negociações. O exército russo chegou a ocupar os arredores de Kiev, na localidade de Bucha, e diante da aceitação do governo da Ucrânia a tratar, o exército russo se retirou da localidade de Bucha sem disparar um único tiro. Depois, os nazistas encheram de cadáveres a localidade culpando o exército russo, mas o governo ucraniano se negou a fazer indagações sobre o fato.
As tratativas entre as delegações russa e ucraniana aconteceram na localidade de Gomel, na Bielorrússia, e quando parecia que tudo estava acertado, o contrato foi destruído pelo governo ucraniano. As ações militares do ano de 2022 continuam com a libertação da cidade de Mariupol, onde, na arena, encontram-se os altos comandos das forças da OTAN. As operações militares prosseguem com leves avanços do exército russo. Durante este período, houve uma grande participação do Exército Checheno e do Grupo Wagner.
Ano 2023, ano que deveria ser o da grande contraofensiva ucraniana, mas que terminou com um debacle. Os modestos avanços do soldado ucraniano terminaram com enormes perdas de soldados e de território. As tratativas de Estambul fracassaram depois de terem chegado a um acordo. Faltaram colocar as assinaturas. Se isso tivesse ocorrido, seria o fim da guerra, mas a chegada apressada de Boris Jhonson, com o ditado a Zelenzki de não firmar, pôs um ponto final no ciclo de tratativas entre a Rússia e a Ucrânia.
No 2024 Trump constatando que não pode vencer a guerra, mas tampouco abandoná-la, envia os europeus ao frente, dizendo: “Essa é a guerra de vocês”; esquecendo-se do que disse Victoria Nuland: “que os europeus se azarem”; assumem a tarefa sem ter os meios necessários para continuar uma guerra, e sobretudo sem ter os objetivos políticos a alcançar com a guerra.Daqui para a frente, para os EUA e para a Europa, tudo foi improvisado. Para os EUA, a necessidade de desviar a atenção neste momento levou à improvisação da incorporação do Canadá como estado 51 dos EUA, à anexação da Groenlândia sem acordo com a Dinamarca, à criação de conflitos desnecessário, enquanto aumenta o conflito com a China.
A Rússia entendeu que a guerra na Ucrânia tem que ser resolvida com os EUA, que são os verdadeiros sujeitos do conflito. Trump, que dissimula que o conflito não lhe diz respeito e busca qualquer medida e manobra para obter tirar vantagens contra a Rússia; propõe “alto o fogo!”, não soluções definitivas. Para o imperialismo a solução definitiva é a derrota da Rússia. Para a Rússia a solução definitiva é a retirada da OTAN de suas fronteiras, começando com a neutralidade da Ucrânia.
O ano 2026 começa com a fronteira capitalista despedaçada. O conflito entre os Estados Unidos, o Canadá e a Dinamarca permanece sem solução, exceto pelo fato de que se agregou o conflito no Médio Oriente. Outro conflito militar sem um objetivo político claro a alcançar, tudo em nome da improvisação. Nessa improvisação surge uma mudança qualitativa nas relações entre os EEUA e a União Europeia: é que a autoridade dos EEUA está desvanecendo. Quando Trump pediu aos europeus que se empenhassem em intervir no Estreito de Ormuz, lhe responderam que não havia acordo prévio, e nem lhes correspondia. Pela primeira vez deixaram os ianques virarem-se sozinhos. Como disse Victoria Nuland: que se azarem!
O que se pode concluir após quatro anos de campanha militar na Ucrânia? A frente capitalista, capitaneado pelos ianques, lançou-se a derrubar a Rússia, o último resquício da URSS. O entusiasmo se converteu em decepção; a decepção em desintegração; e a desintegração torna inviável o instrumento da OTAN.
A OTAN pode não desaparecer, mas está desaparecendo o interesse comum, cada um vai por sua conta! Trump declarou que se a OTAN não lhe serve, deixa o Organismo, e sem os EUA a OTAN desaparece. Talvez, num arrebato de lucidez, disse a única coisa sensata nos últimos anos.
Correspondências da Europa
08/05/2026
LesPosadistes
Foto de destaque (crédito: Joe Raedie_Gettyimages.ru)
PS: Leiam o artigo O CONTEXTO MUNDIAL DAS GUERRAS IMPERIALISTAS E A UNIFICAÇÃO CHINA-RÚSSIA neste site. Uma análise complementar do artigo acima sobre a guerra na Ucrânia.