A importância histórica das eleições no Brasil para o mundo
A vitória de Lula se dá num momento em que as massas do mundo, da Europa aos EUA, vão às ruas em grandes protestos contra a degradação da vida do custo de vida (alimentação, saúde e educação pública), da falta de moradia, da multitudinária perda de empregos, fechamento de fábricas, em função da concentração financeira-militar para a corrente guerra mundial apoiada pela OTAN contra o Irã, a Palestina e parte do Oriente Médio, visando, a curto prazo, a ocupação da Ásia e da América Latina. A vitória de Lula é fruto desta situação de resistência e, ao mesmo tempo, combustível para que ela se acentue e se alastre.
As eleições no Brasil se deram dentro de um contexto mundial em guerra, de polarização de forças antagônicas entre a hegemonia do decadente império capitalista dos EUA e o chamado mundo multipolar do chamado Sul global, unificado em torno da China/Rússia através do BRICS, onde, particularmente a China assume um papel econômico-social-tecnológico rumo à libertação socialista da humanidade com a resiliência militar da Rússia.
Sete milhões se mobilizaram contra Trump nos dias prévios às eleições parlamentares nos EUA, contribuindo para uma clamorosa derrota dos Republicanos. O povo norte-americano já tem votado com os pés. Nove dias após a eleição de Lula, o efeito Brasil esteve presente nos EUA. Não obstante a terrorista manipulação da opinião pública através das redes sociais, este ciclo se rompe e milhares vão às ruas contra esta crise final do capitalismo. As eleições não decidem, nem a direção do partido Democrata é flor que se cheire. Estão lá os mesmos atores da guerra contra a Líbia e o Iraque. Mas, abre-se o caminho para a formação de uma nova esquerda independente apoiada não só em Bernie Sanders, mas em novos deputados e senadores (Michigan, Minesota e Texas), governadores (Texas, Ohio) e prefeitos (Nova Iorque). A perda da maioria parlamentar no Congresso, debilita Trump e seus súditos na América Latina, como os Mileis e Bolsonaros questionados até mesmo por evidentes crises inter-burguesa internas.
As eleições no Brasil
Sem sombra de dúvida, a vitória de Lula representa uma extraordinária conquista antifascista, para manter a democracia no Brasil e impulsionar as lutas de vários países da América Latina e do mundo. Até então a direita internacional tem ou tinha se utilizado das redes sociais para manipular e ganhar eleições, como indicam eleições presidenciais recentes na Colômbia e Peru, onde a direita venceu momentaneamente a batalha cultural, sem descartar que cometeu um fraude efetivo no manejo das urnas, como denunciado por Gustavo Petro. A vitória de Lula quebrou este ciclo e já tem servido como referência para outras eleições no mundo, seja na mobilização popular, como na gestão das redes.
A grande lição para o PT foi constatar que as massas na rua fazem a diferença. A atuação dos estudantes, num primeiro momento no segundo turno, fez a diferença. O trabalho nas redes sócias, com o “Exército de Lula,” organizado pelo Deputado Federal André Janones, fez a diferença. O medo da população dos retrocessos que significaria a vitória de Flávio Bolsonaro, levou os mais variados segmentos a saírem de casa e votarem em Lula. Mesmo que tenhamos tido uma diferença de 4,4 milhões de votos no segundo turno, não fosse os últimos acontecimentos citados acima, havia a possibilidade do outro candidato ganhar as eleições.
Esta foi uma das mais importantes e acirradas eleições da história democrática do Brasil, marcada por ampla participação popular assegurando a vitória de Lula no segundo turno. Lula entra para a história como o primeiro presidente brasileiro a ser eleito por quatro vezes, em sete disputas, e o primeiro a conquistar a reeleição no segundo turno em uma virada sui-generis contra Flávio Bolsonaro, que havia conquistado a vantagem no primeiro turno com 47,03% a 45,16% de Lula. Porém, veio a concorrida virada no segundo turno, no arco de 3 semanas, que reverteu a vantagem para Lula superando Bolsonaro, nos mais de 4,4 milhões votos válidos, 51,79% a 48,21%.
As expressivas e gigantescas mobilizações das massas nas ruas a favor de Lula em todos o país alimentaram a possibilidade real de combater um projeto reacionário, conservador, fascista que transformaria o Brasil em uma colônia americana. Puseram um freio nas urnas à Doutrina Monroe, projeto de dominação e exploração total da America Latina, a empresa Rockbridge Brazil LLC de JDVance, vice presidente de Trump que interferiu diretamente nas eleições para eleger Flávio Bolsonaro; um freio à concentração de renda de figuras como Elon Musk que detém uma fortuna de trilhão de dólares enquanto o mundo vê milhares de pessoas perambulando de um país para o outro, migrando sem casa, sem comida e vendo seus filhos morrerem de fome; um freio às Big Techs como a Meta, principal plataforma de domínio das principais redes digitais como Instagram, Facebook, WhatZapp, instrumento do imperialismo que elegeu Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, cujo mandato anti-direitos, a sociedade tem vivo na memória; sem contar, a tentativa de golpe contra o governo Lula em 8 de janeiro de 2023. Houve, de fato, o temor de uma volta do bolsonarismo levando parte dos seguimentos de direita e anti-lulistas a decidir pelo voto em Lula.
Após o sinal vermelho dado pela vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, houve um apito de alerta. A juventude em particular, a maioria estudantil – secundaristas e universitários – mobilizou os colégios e as universidades, organizou assembleias nas ruas, conversou com comerciantes, com os pais de família, abordou o povo na rua, dentro dos ônibus e metrôs, para alertar sobre o perigo de um gigantesco retrocesso: o retorno do bolsonarismo no comando do país. O lema era: “Ditadura nunca mais!”. Flávio Bolsonaro: um candidato representante da milícia, das organizações criminosas ligadas ao narcotráfico, associado aos escândalos do Banco Master, envolvido com práticas de orgias e entretenimento de sexo para agradar políticos; das rachadinhas e de um obscuro projeto entreguista das riquezas do Brasil por meio da formação de um Conselho do governo bolsonarista e EUA para governar o Brasil.
O iminente risco Bolsonaro levou a juventude estudantil a assumir o comando da campanha nas ruas, que se estendeu aos artistas, aos shows e passeatas, integrando ao movimento do L de Lula, transformado num símbolo nacional e internacional.
A ofensiva exemplar da campanha de Lula foi a coordenação entre as mobilizações vermelhas gigantescas nas grandes capitais, e nos vários rincões do país, e a reação organizada nas redes sociais, particularmente através do “Exército do Lula”, dirigido pelo deputado eleito (MG), André Janones.
A participação ativa de Lula, histórico líder sindical e metalúrgico do ABC, nordestino, com seus 81 anos deram o tom maior da sua eleição. Lula percorreu todos os Estados de norte a sul, dialogou e abraçou seu eleitorado, operário-camponês, conquistando muitos indecisos para o 25, dia decisivo, de extrema tensão. Lula foi consagrado com uma reviravolta histórica, garantida pela votação dos nordestinos que fizeram história incentivando e servindo de suporte aos idosos que foram convencidos a votar.
Idosos que mal podiam andar, de cadeiras de rodas, de maca, como a velhinha que saiu do hospital porque queria dar seu último voto ao Lula, ou os povos originários da região do Amazonas que viajaram pendurados em barcos e canoas lotadas e enfeitados com bandeiras vermelhas. Vejam a emoção de Lula e Janones ao recordar o esforço dos idosos e enfermos indo votar. Rodoviárias de todo o país ônibus saiam lotados de eleitores lulistas dispostos a virar o jogo, apesar do boicote de prefeituras bolsonaristas e mudanças improvisadas de locais de votação. Lula cresceu em todas as regiões com exceção do Sul do Brasil, na região sudeste onde concentra a maior riqueza do país Lula cresceu nas principais capitais, São Paulo, Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro. Lula nesta campanha, demonstrou que ele não é apenas uma ideia, mas uma essência que se revela na plenitude por sua humanidade! Algo necessário para a romper a atitude burocrática das direções revolucionárias.

Nunca na história do Brasil houve um processo eleitoral de tamanha mobilização popular. A tentativa do candidato perdedor de propor a anulação da eleição por fraude caiu por terra, ficou desarmado diante do próprio presidente do TSE, o ministro bolsonarista que negou qualquer irregularidade nas urnas, todos os partidos políticos de oposição do Brasil reconheceram a vitória da Coligação de Esquerda. Além da colossal repercussão mundial e o reconhecimento da vitória de Lula pela maioria dos países, desde os governos de direita latino-americanos a governos de esquerda, Cuba, México, Russia, China, Irã, e organismos internacionais como a ONU, OEA, CEPAL, Conselho da Europa, etc.. A única saída do candidato playboy fascista foi fugir, como um criminoso, para os EUA, fuga articulada pelo departamento de Estado norte-americano e pelo governo sionista da Argentina, Javier Millei.
O “Exército de Lula” nas redes sociais, que alcançou 10 milhões de seguidores com Janones expressa não só experiência tecnológica, mas a importância do papel do dirigente político, com tradição, energia, sentimento, ideias e propostas que o elegeram deputado. Enfim, tornou-se um exemplo reconhecido por políticos europeus, pelos peronistas na Argentina que já o receberam para assimilar e seguir sua experiência na batalha anti-Milei. Janones, enviado por Lula, já esteve com Cristina Kirchner (presa na Argentina), visitará Gustavo Petro (Colômbia) e Pedro Sánchez (Espanha).

A grande marcha do 2º. turno foi na contramão do poder da grande mídia hegemônica (Globo, Record, etc…) e insuficiências comunicacionais anteriores nas TVs ou redes do PT e de forças progressistas na América Latina, que tardaram a mostrar à cidadania que o clã Bolsonaro é o mesmo do Milei (subordinado a Trump e FMI) que em três anos usou a motoserra para cortar gastos “inúteis”, para não dizer básicos: na educação e saúde pública, nos direitos trabalhistas. Não obstante, Lula não deixou de enfocar, de forma certeira, no final de sua campanha a precariedade econômico-social da Argentina atual, ressaltando o tema da soberania nacional (já discursado na ONU) de que o “Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Além disso, desviou-se da narrativa provocadora da campanha de “lawfare” da direita e agilizou medidas programáticas concretas, visando um futuro imediato: a votação contra o 6×1 no Senado; o ataque às Bets; a PEC da tarifa zero (que deveria generalizar-se a todos os dias da semana); o investimento em ciência-educação-saúde e desenvolvimento tecnológico da IA, e na Segurança.
Perspectivas do novo governo Lula
Logicamente, a figura histórica do próprio Lula foi decisiva para a sua vitória. As defesas das conquistas sociais, das terras raras, da segurança da população, da soberania nacional foram decisivas para a vitória de Lula. Mas há que reconhecer que no seu quarto mandato vamos precisar avançar programaticamente para implantar um programa de profundas transformações sociais.
Não há dúvida que conquistas sociais aconteceram como a valorização do salário mínimo e o reajuste das aposentadorias acima da inflação, mas o custo de vida ainda é muito alto. Não há dúvida que o país cresceu acima da média de muitos países. Avançamos no SUS, na criação de Institutos Federais e Universidade Públicas, no ensino fundamental integral, no Programa Cozinhas Solidárias, no Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar – PAA, no Pronaf. Não cabe aqui descrever todas as extraordinárias conquistas do governo Lula que levou a sua vitória.
O novo governo Lula deverá tocar nas taxas de juros; no bolsa família dos banqueiros que tem o saldo dos depósitos remunerado pelo Banco Central e na taxa de juros do Banco Central; nas isenções fiscais astronômicas que não trazem nenhum retorno ao desenvolvimento do país; nos salários de setores estatais que beiram a verdadeira ofensa a população mais pobre; nos rombos a economia nacional como o caso do Banco Master e das Lojas Americanas; resolver as causas das tragédias ecológicas de Brumadinho e Mariana; implementar um programa de produção de insumos para a agricultura dependente da importação; de crescimento econômico com elevação da renda média da população; da regulação das redes sociais; da implementação de um programa de segurança nacional com a aprovação da PEC da Segurança Nacional; no retorno do papel preponderante do Estado na Eletrobrás e Petrobrás via auditoria da dívida pública que privilegie os direitos da cidadania contra as privatizações.
Defender a soberania nacional, significa materializar a criação de uma Empresa estatal para explorar e processar em solo nacional as terras raras (Terrabrás), mesmo com parceria minoritária de outras empresas estrangeiras. Importante, as decisões na reunião do Conselho Nacional de Política Energética que o governo Lula acaba de anunciar. Vejam. Junto a isso, há que aprofundar a Reforma agrária com incorporação de ciência e tecnologia para a agricultura familiar, e a participação de representantes do MST no governo.
Para o PT, em particular, fica a lição da necessidade de mudar a sua prática de comunicação, a exemplo dos Presidentes do México (Cláudia Sheinbaum/Lopez Obrador) e agora, do Lula tetra, falando cotidianamente com a população, seja via TV Gov, TV Pública e Canais do Exército do Lula, discutindo seus problemas e soluções, mobilizando-a em defesa de determinadas pautas. Importante a decisão de Lula realizar semanalmente uma live do Exército com Janones.
De qualquer forma, o Bolsonarismo teve uma expressiva votação e fez uma grande bancada opositora no Congresso Nacional que exigirá, de Lula e do seu governo, toda a sua experiência política para aprovar as medidas necessárias para impulsionar o desenvolvimento do país. Certamente, deverá contar com um diálogo permanente com a população, contanto com a qualidade comunicacional revolucionária dos novos deputados jovens eleitos como Ana Elisa (PT) e André Janones (Rede Sustentabilidade) em Minas Gerais. É preciso que os parlamentares rendam contas de seus discursos e de suas propostas às bases nas redes e nos bairros. Há que suprir as carências das últimas gestões do PT, da esquerda e das forças progressistas: exercícios de comunicação sobre orçamentos participativos.
É preciso ter em conta que a direita não dará trégua ao novo governo. Mas, a sua vitória criou elementos objetivos para uma nova relação de forças mundiais, incluindo a derrota eleitoral de Trump nos EUA, e o questionamento a Netanyahu em Israel, para impedir que a América Latina seja novo quintal do imperialismo, e novas Gazas pelo mundo. É hora do Brasil avançar finalmente de um governo democrático popular a um Estado revolucionário e impedir golpes como contra a revolução bolivariana da Venezuela e Cuba.
Lula, mais do que nunca, pode e deve se apoiar no BRICs, ASEAN, nas relações com China e Rússia, Mercosul e no chamado Sul Global, mesmo mantendo relações comerciais e diplomáticas com a Europa e os EUA. Com o tarifaço de Trump, o Brasil ampliou sua relação comercial com vários países do mundo. Lula saiu maior do que entrou nestas eleições e tem o reconhecimento internacional por sua liderança política e protagonismo essencial para o avanço na dita Nova Ordem Mundial, baseada numa Frente Única anti-imperialista.
Comitê de Redação
PosadistasHoje
06/11/2026
Foto Destaque: Lula na Av Paulista (Crédito: Paulo Pinto – AB)