As revoltas da juventude na França são de todos


As revoltas da juventude na França são de todos

Desde 26 de setembro de 2026, estudantes do ensino médio têm ocupado as ruas, bloqueando o acesso às aulas para denunciar condições de vida e de estudo insuportáveis que não são novidade. O fato de a revolta ter começado em Seine-Saint-Denis — o departamento mais pobre e desigual da região de Paris — não é por acaso. Há anos ocorrem mobilizações para denunciar o abandono dos serviços públicos e, em particular, as graves falhas da educação nacional nesse bairro.

Todos os sindicatos, professores e pais de alunos de escolas e colégios ampliaram sua mobilização em 2024, por meio de greves, para exigir “um plano de emergência para as escolas públicas” diante da crônica falta de investimento do Estado, da escassez de profissionais da educação e na área de saúde escolar, com o agravamento das condições insalubres das instalações e dos equipamentos. Eles contaram com o apoio de representantes eleitos, associações e moradores da região, sem que se observasse, contudo, uma melhora significativa.

Mobilização em Seine-Saint-Denis para obter um plano de emergência para a educação

Indignação legítima A ira que os jovens nas escolas de ensino médio expressam hoje em dia é legítima. É o resultado de políticas públicas que preferem conceder às grandes empresas auxílios financeiros indecentes — 211 bilhões de euros, segundo o relatório do Senado de julho de 2025 — em vez de manter os serviços públicos e atender às necessidades concretas da população. Temos também o direito de nos perguntar para que foi utilizado esse auxílio público, ao observarmos o número de empresas em falência e a quantidade de planos de demissão anunciados. Essas políticas públicas agravam as desigualdades e não transmitem nada além de desprezo pelos jovens, que têm direito a algo diferente da exclusão, da precariedade, da discriminação e de um futuro incerto.

Essa revolta manifesta-se após vários meses de onda de calor, durante os quais nada foi feito para que as populações dos bairros mais pobres pudessem se proteger do aquecimento global — um cenário em que o calor intenso nas residências tornou a vida insuportável. Além disso, o início do ano letivo repetiu o padrão de anos anteriores: turmas superlotadas, ausência de professores não substituídos e a plataforma digital Parcoursup — que deveria atender às aspirações dos estudantes — revelou-se, na verdade, apenas um instrumento de classificação social. As intervenções necessárias ainda não foram realizadas: tetos em ruínas, falta de aquecimento no inverno, banheiros inoperantes, entre outros problemas.

Manifestação de estudantes do ensino médio contra a IA que gerencia seu futuro por meio da plataforma Parcoursup

Esta mobilização é também resultado da pressão de uma situação política na qual querem nos fazer acreditar que a guerra está às nossas portas, e que é absolutamente necessário aumentar as verbas destinadas a armamentos. Após o fim do Serviço Nacional Universal, introduz-se a militarização nas escolas, com aulas de “defesa e segurança global” do ensino fundamental ao ensino médio — um projeto de lei que visa familiarizar os jovens com a defesa e incutir neles um sentimento de pertencimento republicano, no qual o exército seria uma via de integração social e profissional.

Também foi anunciado um orçamento para 2027 ainda mais austero do que os anteriores; a economia de 54 bilhões de euros anunciada reduzirá, mais uma vez, os gastos sociais e piorará as condições de vida da maior parte da população, que já vem sendo afetada pelo aumento dos preços dos combustíveis, de itens básicos, gás e eletricidade.

“NÃO” a uma vida sem futuro

A juventude diz “NÃO” a essa política que não lhe oferece um futuro digno. Isso tem ficado evidente nas ruas de todo o país, com alegria e bom humor, por meio de cartazes e palavras de ordem repletos de criatividade e imaginação. Em vez de perderem o fôlego — como o governo chegou a prever —, os jovens têm conseguido mobilizar, a cada semana desde 17 de outubro, todos ao seu redor: partidos e sindicatos, pais, professores, estudantes e muitos outros cidadãos — incluindo os “coletes amarelos” que, após terem sofrido uma violência política desumana (do mesmo tipo que os estudantes do ensino médio enfrentam agora), voltam a lutar contra o alto custo de vida e as desigualdades econômicas e sociais.

Naturalmente, a repressão policial foi intensa. É claro que os agitadores estavam lá, como sempre acontece quando se aproximam as campanhas eleitorais. Os ataques da polícia e da gendarmaria contra os estudantes do ensino médio foram tão desproporcionais que aqueles que participaram da luta contra o megaprojeto hídrico de Sainte-Soline — e que enfrentaram uma violência repressiva sem precedentes — estabeleceram a conexão.

A “Orquestra del Nuevo Mundo” — jovens que reinterpretam o repertório clássico à sua própria maneira e se manifestam por meio de seus instrumentos musicais — chegou a ser atacada com gás lacrimogêneo enquanto tocava na Praça da República, em Paris; o que demonstra que a música não amolece o ânimo de todos. Muitos jovens ficaram feridos, desfigurados e mutilados por disparos de armas de guerra, e 8.000 foram levados à justiça.

Nos estão preparando para a guerra

A guerra está, portanto, em nossas ruas. É o sinal de um governo e de um sistema no limite, que teme perder o controle da situação à medida que se aproximam as eleições presidenciais e legislativas — o que torna a “França Insubmissa” (LFI) o bode expiatório de toda “violência urbana”. Esse termo, adotado pela mídia, visa subestimar os protestos, invisibilizar as demandas da juventude e, sobretudo, o nível de consciência que ela expressa diante de uma sociedade que, de modo algum, a leva em consideração. Não é a LFI, nem qualquer outro partido político, que lhe confere essa consciência, mas sim a situação extremamente grave do mundo em que vive — as mobilizações que ocorrem, por toda parte, contra os projetos sem sentido, práticas de outra época que agravam as condições climáticas, destroem o meio ambiente e a biodiversidade, e aumentam as desigualdades sociais.

Essa violência empregada tem como objetivo assustar os demais. Algumas investigações da imprensa livre — que não está sujeita a pressões de multinacionais, multimilionários e suas imposições — relatam o tratamento dispensado a capangas e saqueadores que puderam participar dos saques no dia 17 de outubro sem serem incomodados pela polícia. Não foram eles que, a exemplo de milhares de jovens presentes nas ruas, acabaram detidos, levados a um tribunal de julgamento imediato e submetidos a condições desumanas na prisão.

Violencia policial em 17 de outubro em Paris

Quem se beneficia desta situação? Certamente não os organizadores e participantes das mobilizações que marcham tranquilamente pelas ruas para afirmar seu desejo de mudança. Ela beneficia a extrema-direita e seu desejo de impor um regime autoritário e medidas de segurança em todos os níveis da sociedade. Basta observar os abusos cometidos por grupos de extrema-direita e milícias neonazistas que saem às ruas de Nice, Montpellier, Rouen, Lyon e outras grandes cidades, com total impunidade, para atacar todos aqueles que não pensam como eles, que não têm a pele branca e que lutam por uma outra sociedade. O mesmo ocorre com o ataque em Trappes, que resultou na morte de um jovem negro no dia 23 de outubro. A extrema-direita, apoiada por este governo, e a burguesia de direita normalizam o racismo e a violência por toda parte, preparando-nos, assim, para uma guerra civil.

Quais são as consequências do movimento social?  Estamos em um ciclo de escalada no qual o direito de manifestação é desrespeitado. Este governo alterou as rotas das manifestações de última hora para limitar o número de participantes, confinou os manifestantes fora dos centros das cidades para evitar abusos e saques a lojas, estabeleceu toques de recolher nas cidades mais importantes para impedir mobilizações e tentou fazer com que as redes sociais fossem bloqueadas pelas operadoras de telefonia. Em um posto de pedágio, bloqueou 3 dos 5 ônibus — ou seja, 200 pessoas — que seguiam para Orleans, no dia 24 de outubro, para protestar contra a realização do congresso do Reagrupamento Nacional (RN) naquela cidade.

O Senado acaba de aprovar uma lei — apelidada de “breaker-pay” — por unanimidade, tanto pela direita quanto pela extrema-direita, que torna qualquer manifestante responsável pelo pagamento de uma indenização de 10.000 euros por pessoa, mesmo que ele não tenha causado danos ou depredações em via pública. Caso o indivíduo não tenha condições financeiras, o valor poderá ser descontado dos benefícios sociais que ele recebe. Outras medidas perigosas também estão sendo implementadas, como a prisão domiciliar — que faz parte das medidas de exceção previstas pelo Código de Segurança Interna no combate ao terrorismo. Isso significa que qualquer jovem flagrado em uma manifestação, mesmo sem antecedentes criminais, pode ser automaticamente submetido à vigilância.

Em vez de arrefecer, a ira dos estudantes do ensino médio multiplicou-se diante da falta de respostas às suas reivindicações e da escalada de medidas que restringem as liberdades públicas, desafiando as normas constitucionais. Esse sentimento juntou-se à indignação do movimento social contra o atual governo e suas medidas repressivas e violentas. No dia 24 de outubro, 800 mil pessoas estavam nas ruas — inclusive em locais onde manifestações não haviam sido autorizadas! As mobilizações prosseguiram em 31 de outubro, com 500 mil manifestantes nas ruas, e agora o grupo se prepara para aderir à greve prevista para 5 de novembro, convocada pela frente intersindical.

Este dia de greve deve ser um evento importante na conjuntura atual. Ele é convocado pelas cinco principais organizações sindicais — CGT, CFDT, FO, UNSA e FSU — para reivindicar aumentos salariais, a melhoria dos serviços públicos e o combate ao alto custo de vida; a mobilização deve reunir todas as forças do setor público e estender-se também ao setor privado.

A eleição presidencial de abril de 2027 está na mente de todos. Este sistema, que vive apenas para acumular lucros em detrimento dos seres humanos, não é capaz de desenvolver uma sociedade onde os jovens possam prosperar. Para manter seu poder, ele utilizará todos os meios à sua disposição para privar de liberdade todos aqueles que não seguem o caminho correto que ele pretende impor, reprimindo e adotando medidas cada vez mais autoritárias. Isso fica evidente nas recentes declarações de Gérald Darmanin – o ministro do Interior que promoveu a repressão em Sainte-Soline, em 2023 –, ao exigir a perda de direitos civis para os responsáveis por saques; sendo que os saqueadores, é claro, não são aqueles que imaginamos.

Os partidos de esquerda têm uma grande responsabilidade nos próximos seis meses: construir a unidade em torno de um programa anticapitalista, a fim de impor outras decisões políticas e edificar uma sociedade solidária, ecológica, igualitária e social. Esse é também um dos desafios do movimento que se desenvolve hoje: manter a pressão para impor uma nova correlação de forças que nos permita pôr fim a este sistema.

Les Posadistes

Paris, 31 de outubro de 2026

 

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