A vitória de Lula no Brasil gera uma nova relação de forças na América Latina e no mundo
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O mundo inteiro, particularmente a América Latina, se encontrou em suspense na expectativa dos resultados e consequências das eleições presidenciais no Brasil. O grande risco que correram a democracia e o futuro da maioria do povo brasileiro, com a reocupação do projeto fascista-miliciano dos Bolsonaros nestas eleições, está dentro de um contexto mundial em guerra, de polarização de forças antagônicas entre a hegemonia do decadente império capitalista dos EUA e o chamado mundo multipolar do chamado Sul global, unificado em torno da China/Rússia através do BRICS.
Entre os riscos evidenciados no primeiro turno e a virada dos 4,4 milhões no segundo turno (64.256.232 em Lula (51,79%) e 59.826.041 em F. Bolsonaro (48,21%), dando a tetra vitória ao presidente Lula, houve um salto de qualidade, não apenas de quantidade e números. Há um salto de qualidade e de relação de forças favoráveis ao protagonismo das esquerdas e dos movimentos sociais.
Caberá a Lula da Silva, dirigir a continuidade deste processo de salto rumo a transformações sociais mais profundas. A sua grande interação demonstrada com as massas e os novos quadros como André Janones e Ana Elisa, de Minas Gerais, e sua mensagem final da vitória na Av. Paulista, sinalizam uma nova percepção e políticas essenciais do seu novo governo rumo a uma maior comunicação e protagonismo popular nos próximos anos.
Não obstante a evidente derrota política do PL com a fuga de Flávio Bolsonaro, o povo não se esquece dos graves atos desestabilizadores já dados pela direita contra a vitória democrática de Lula e sua posse, em 8 janeiro de 2023. Estas eleições se deram no contexto de contínua estratégia golpista, apoiando-se num setor minoritário do STF, tentando outro caminho, o dito “brando”, sem armas, através das urnas na América Latina, como na Colômbia e no Peru, onde o grande capital financeiro se apodera do mundo digital, das bigtechs (Meta), algoritmos, chatbots, edificadores de fakenews, na surdina das redes sociais, instigando uma batalha cultural, o apoliticismo, a abstenção e o ódio.
A vitória eleitoral de Lula não descarta que houve uma descarada intromissão dos EUA nas eleições brasileiras, bem denunciadas pelo assessor, Celso Amorim, já no primeiro turno. Sem contar as tentativas de bloquear o transporte de eleitores nas prefeituras bolsonaristas nas zonas pobres do país, ou a redução de urnas no Nordeste, base eleitoral histórica de Lula. Mas, desta vez, fracassaram no Brasil. Lula pisou firme, marcou um histórico passo, por enquanto eleitoral, e venceu reforçando a unidade continental com Claudia Sheinbaum (México), Cuba, Uruguai, e outros países.
A grande energia de povos indígenas e ribeirinhos para votar no segundo turno, e a diminuição significativa da abstenção mostra que a consciência do povo não está adormecida quando a “pátria está em risco”. O reconhecimento de Lula, como líder de massas internacional se alastrou com manifestações em “L” que chegaram até Gaza. Na Argentina de Milei, Lula foi eleito por 70 por cento dos imigrantes brasileiros. A eleição no Brasil imprime mais energia para a reorganização do peronismo; para o ressurgimento desse novo maio 68 francês e o “votar com os pés” no renascimento europeu.
A grande marcha do 2º. turno foi na contramão do poder da grande mídia hegemônica (Globo, Record, etc…) e insuficiências comunicacionais anteriores nas TVs ou redes do PT e de forças progressistas na América Latina, que tardaram a mostrar à cidadania que o clã Bolsonaro é o mesmo do Milei (subordinado a Trump e FMI) que em três anos usou a motoserra para cortar gastos “inúteis”, para não dizer básicos: na educação e saúde pública, nos direitos trabalhistas. Não obstante, Lula não deixou de enfocar, de forma certeira, no final de sua campanha a precariedade econômico-social da Argentina atual, ressaltando o tema da soberania nacional (já discursado na ONU) de que o “Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Além disso, desviou-se da narrativa provocadora da campanha de “lawfare” da direita e agilizou medidas programáticas concretas, visando um futuro imediato: a votação contra o 6×1 no Senado; o ataque às Bets; a PEC da tarifa zero (que deveria generalizar-se a todos os dias da semana); o investimento em ciência-educação-saúde e desenvolvimento tecnológico da IA, e na Segurança.
A experiência brasileira nesta eleição histórica, dando a Lula, líder de classe, operário-metalúrgico, preso e perseguido pelo “lawfare”de Moro, o quarto mandato presidencial a 81 anos de idade, tem sido um impulso de persistência aos povos do mundo e uma escola para suas lideranças.
A sintonia fina entre as mobilizações vermelhas gigantescas nas grandes capitais, e nos vários rincões do país, e a reação organizada nas redes sociais, particularmente através do “Exército do Lula”, dirigido por Janones, foi o combustível da vitória do povo brasileiro. Estes dois cavalos de batalha com novas características: as mobilizações não eram apenas multitudinárias, mas tinham uma composição extraordinária, juvenil, feminina, multirracial, idosa, lgbt, trabalhadora, sindical, autoconvocada (não só da bolha militante); expressões de consciência, bronca, aos gritos, lágrimas e cânticos: “Ditadura nunca mais”; o “Exército de Lula” que alcançou 10 milhões de seguidores com Janones expressa não só experiência tecnológica, mas a importância do papel do dirigente político, com tradição, energia, sentimento, ideias e propostas que o elegeram deputado. Enfim, tornou-se um exemplo reconhecido por políticos europeus, pelos peronistas na Argentina que já o receberam para assimilar e seguir sua experiência na batalha anti-Milei.
Mas, André Janones expressa não querer burocratizar-se como ministro. Fortalecerá seu papel de general e soldado: cumprir uma função essencial na batalha parlamentar e comunicacional de Lula. A paixão política destes jovens deputados como Ana Elisa e Janones, como comunicadores de ideias, deverá compensar a perda numérica do governo Lula frente ao crescimento da direita parlamentar no Senado e Câmara de Deputados. Não só através de seus discursos, mas da sua capacidade de render contas de suas propostas ao povo e dirigir-se às bases nas redes e nos bairros. Algo que, careceu nas últimas gestões do PT, da esquerda e das forças progressistas: exercícios de comunicação sobre orçamentos participativos. As próprias expressões “Exército”, “soldados”, inspiram chamados à setores nacionalistas das Forças Armadas, a quem Lula dirigiu o Hino da Independência na campanha, a estarem despertos ao lado do presidente na defesa da soberania popular e territorial do Brasil.
Dirigentes como J. Pedro Stédile, do MST, que têm tido uma atuação de apoio crítico ao governo Lula, sem deixar de reivindicar a Reforma Agrária, e o apoio aos Sem Terras e pequenos agricultores na luta contra o agronegócio e os transgênicos, deveriam ter uma participação mais decisiva na nova fase do governo tetra, nos projetos de micro-destilarias e usinas, estimulando a aliança operário-camponesa com Estado local presente. Sua defesa no campo da solidariedade com os povos da América Latina, como Venezuela e Cuba, também merece ser incorporada plenamente na política de relações exteriores do Itamaraty.
A reeleição de Lula viabiliza a continuidade da execução dos projetos tecnológicos no campo da saúde e do SUS com apoio do NBD e relações com o BRICS. Abre-se a ofensiva para a criação da Terrabrás e assegurar o maior controle estatal das terras raras. Isso, como a decisão de implementar uma “Força Tarefa” contra agressões sofridas por populações indígenas do Mato Grosso do Sul, é parte da defesa dos direitos humanos unida à soberania nacional. “Soberania ou barbárie!” (Lula na av. Paulista)
A entrevista da ex-presidenta Dilma Roussef, aos jornalistas Leonardo Attuch e Fernando Morais, com explicações detalhadas sobre a função do BRICS e o funcionamento do NBD, incluindo apoio a projetos em solo brasileiro, reforça elementos para contextualizar a disputa dos EUA em ter o Brasil como o seu principal quintal de ocupação na América Latina. A participação do Brasil no BRICS com acordos bilaterais com a China, com independência tecnológica, embasa a segurança do discurso de Lula na ONU, reiterado em campanha eleitoral: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, citando a Paulo Nogueira Batista Jr.
Lula reeleito, será um Lula mais disposto a enfrentar o poder hegemônico, apoiando-se nas alianças eleitorais táticas do momento. Mãos-à-obra com muitos Janones e povo na rua. A direita não dá trégua com o ataque das fake news desestabilizadoras. Importante sua decisão de viajar pelo país, seguindo a interação direta com o povo. “O povo é o meu combustível!”. Como já dito, a comunicação diária sobre as medidas governamentais, via TV Gov, ou Coletivas de Imprensa ao estilo Claudia Sheinbaum/Lopez Obrador também será decisiva para o novo Exército de Lula.
02.11.2026
(Crédito foto: Rafa Neddermeyer – Agência Brasil)