24 de março na Argentina: Mais do que nunca, “Nunca Mais” na Argentina


MAIS DO QUE NUNCA, “NUNCA MAIS” NA ARGENTINA

Aos 50 anos após o 24 de março de 1976, a Praça de Maio em Buenos Aires acolheu uma das maiores manifestações na Argentina dos últimos anos, para dizer um “Nunca Mais” ao terror do golpe cívico-militar. Foi uma das mais profundas e abrangentes expressões vividas neste particular dia da “Memória, Verdade e Justiça”, que vem se dando anualmente, desde a primeira convocação em 1984 feita pelas Mães das e dos 30 mil desaparecidos, quando estava por se realizar o primeiro julgamento à Junta militar. Desde o governo de Nestor Kirchner, o 24 de março é, por lei, um feriado nacional irrevogável.

Desta vez, segundo alguns analistas, foram dois milhões. Muito provável, dado a densidade, o ir e vir de massa humana, e a quantidade das artérias diagonais e de ruas de acesso repletas. Sem contar que nas principais capitais do país (Córdoba, Mendoza, Tucumán, Rosário, La Plata,….)  superavam centenas de milhares. O covarde aparato repressivo de todas as quarta-feiras na Praça do Congresso contra os velhos e as aposentadas não ousou chegar.

O surpreendente salto quantitativo tem a ver com o qualitativo. Por fora da massiva presença das organizações políticas de sempre – Direitos Humanos, Sindicatos, Partidos políticos, Associações de bairro, Grêmios de estudantes, médicos, intelectuais, artistas e aposentados organizados – a participação espontânea de famílias inteiras com crianças, de jovens e mulheres, caracterizou um salto de qualidade determinando a quantidade gigantesca

A atuação popular frente a um fato histórico como o 24 de março iniciou-se, desta vez, dias antes, e continuou depois da data. Nas escolas, professores e estudantes, desde o jardim de infância, realizam atos de conscientização sobre a história, o golpe ditatorial, as mortes e desaparecimentos. Os lenços brancos das mães e avós da Praça de Maio, são para as crianças, bandeiras de justiça, democracia e amor.

 

Nos bairros, várias organizações chamadas “unidades básicas” peronista-kirchneristas e da esquerda em geral, promoveram ações de mobilização nos bairros: lenços brancos nas árvores das praças, cartazes e faixas com fotos dos moradores-militantes desaparecidos nos anos próximos a 1976. Mães e avós em núcleos de bairro se dedicaram a bordar o nome dos parentes desaparecidos. Assim, fizeram uma faixa gigantesca que se estendeu no percurso da grande manifestação. Os familiares e organizações políticas aos quais pertenciam as e os 30 mil desaparecidos, desfilaram desta vez, expondo suas fotos no peito e nos cartazes.

O objetivo de fazer chegar ao povo, reativar a memória das novas gerações anestesiadas pelo “negacionismo” instalado pelo governo Milei, se alcançou neste 24 de março. A mídia não hegemônica, C5N ou Ar12, tem feito uma campanha informativa-cultural, com documentários sobre locais clandestinos de prisão, tortura e desaparecimento na ditadura, convertidos em museus de memória a partir dos governos kirchneristas. O governo atual tem cortado o orçamento de manutenção do Estado ao Museu Lugar da Memória (ESMA), do Arquivo Nacional da Memória e as atividades dos processos contra Delitos de Lesa Humanidade. Leia Uma maré gigantesca de manifestantes percorreu, como sempre, quilômetros desde a ESMA à praça de Maio.

O recado foi dado: há que reativar a memória da juventude, com uma forte batalha cultural. As históricas mães militantes do movimento da Praça de Maio que ainda estão vivas, depois de Azucena Villaflor, Hebe de Bonafini, Nora Cortiñas e tantas outras, são 3; e as avós, são 2. As novas gerações estão convocadas a continuar o seu legado, a sua busca. ¡Que digam onde estão! ¡ Que digam onde estão! Este era o grito central de todas as vozes em meio às mãos que agitavam as fotos dos e das desaparecidas.

Tati Almeida (mãe) disse no seu discurso: “Não olvidamos, não perdoamos e não nos reconciliamos. Porque nós somos o país do Nunca Mais e do lenço branco. Porque seguiremos, como disse Paco Urondo, até que tudo seja como nós sonhamos e lutamos”. “Não nos venceram.” A avó histórica, Estela de Carlotto, também leu um discurso falando que já descobriram 140 netos apropriados. “Desde a assunção do governo de Milei, só ocorreu a redução das políticas públicas que garantam este e todos os direitos do povo”… Há que “garantir a restituição dos netos apropriados.”…Se alguém tem informação sobre um possível filho de pessoas desaparecidas, nos procurem. Nunca é tarde”.

O sentido do grito de milhões: “Que digam onde estão!”, e a ampla exposição de fotos das vítimas da ditadura, 50 anos depois, é muito mais que um protesto com esperança. É um ultimatum! Não apenas um novo “Nunca Mais”. Agora, é mais que nunca, “Nunca Mais”. Houve cartazes que diziam que “Nunca Mais” não é uma consigna do passado. Não é uma reivindicação somente dos familiares e amigos dos desaparecidos. Tudo soa como um “alto lá!” da cidadania, que supera o eleitorado do governo, e que neste 24 de março votou com os pés na rua. Um veto ao negacionismo de Milei para quem “a justiça social é um crime”; às suas ameaças à democracia, à soberania nacional. Um veto à sua votação na ONU contra a Resolução, reivindicada pela África, de que a escravidão transatlântica foi “o maior crime contra a humanidade”.

O sinal vermelho foi dado por multidões contra o governo Milei, que opera a mesma, ou pior, política econômica de Martinez de Hoz, de exclusão social, de subordinação à hegemonia dos EUA, imposta em 1976 com ditadura e repressão. Hoje, 50 anos após, num país arrasado, com cortes extremados do Estado na educação, saúde, cultura, ciência e obras públicas; com a derrubada da indústria nacional, o desemprego sem freios, o custo de vida inalcançável; tudo, o empobrecimento e as perdas humanas pela fome, é retratado por muitos como um genocídio silencioso. Este 24 de março denotou um massivo NÃO ao golpe que já está se dando que tem características cívico-militar.

 

 

 

 

 

 

Na manifestação estiveram presentes os trabalhadores da antiga fábrica de pneumáticos (FATE) contra o seu fechamento, buscando apoio e fundos para a sobrevivência familiar dos mais de 920 desempregados; ao lado, cartazes das dezenas de operários da Techint desaparecidos na ditadura. A casa da ex-presidenta Cristina Kirchner, em prisão domiciliar injusta, foi circundada por multidões pedindo “Cristina Livre”, sinalizando que “Nunca Mais não é algo do passado”. O Núcleo do PT na Argentina, esteve também presente, acompanhado do deputado Reimont (PT-Rio), com uma faixa de brasileiros desaparecidos, junto a outros imigrantes latino-americanos que reivindicavam suas vítimas compatriotas. O jornal Brasil de Fato deu ótima cobertura a este evento.

 

 

 

 

 

 

A manifestação do dia 24 indica não querer silenciar mais. A sensação é de que a sociedade percebe que falta pouco para um salto da repressão econômica e social a uma repressão política violenta e massiva aos direitos humanos e democráticos. Tudo se torna mais preocupante no contexto mundial de guerra. Sobretudo sob um governo que minimiza que as “Malvinas são argentinas”, e que 649 combatentes compatriotas, recrutados com menos de 20 anos, foram mortos na guerra contra a Inglaterra. Com esses antecedentes, o presidente atual pretende, sem consulta parlamentar, nem popular, envolver o país numa guerra, visivelmente rechaçada pelos povos do mundo. Os 8 milhões de cidadãos norte-americanos nas ruas do EUA abalaram o promotor da guerra: “Não ao Rei!”

A maré humana que afrontou a Casa Rosada continha uma energia cinética contagiante. Não era violenta, nem fúnebre. Transbordava a alegria de um povo que se reencontrava, de famílias que se abraçavam dizendo: Não estamos sós, nem paradas.

Isso sacudiu os alicerces da Presidência já abalados, nas últimas semanas, com o acelerar das denúncias comprovadas do envolvimento de Milei, e sua irmã Karina, na corrupção do caso $Libra das criptomoedas. Simultaneamente, o escândalo do chefe de Gabinete da Nação e porta-voz, Manuel Adorni, acusado de enriquecimento ilícito. Nem a mídia hegemônica e as redes sociais logram contornar a verdade dos fatos.

Passados dois dias, a Corte de Apelações de Nova Iorque sentenciou a favor da nacionalização da YPF (petroleira estatal) realizada durante o governo de Cristina Kirchner e seu ex-ministro da Economia, atual governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof. Nacionalização esta, renegada pelo presidente Milei, privatizante e apoiador do acionista estrangeiro, expropriado e apelante, Fundos Abutres. A repentina medida judicial aparenta uma faca de dois gumes empunhada desde os EUA. Um salva vidas ao governo atual porque elimina o pagamento de 16 bilhões de dólares por parte da Argentina, já afundada numa dívida externa impagável contraída por Macri com o FMI. Mas, por outro lado, e sobretudo, é uma medida que vai politicamente a favor do peronismo do seu projeto de reforço do Estado e da soberania nacional energética. Por isso, Cristina e Kicillof festejaram.

Enviado especial desde B. Aires
29 de março de 2026.

Foto Destaque: Praça de Maio em 24 de março de 2026 (c’redito: Luis Robayo – AFP)

 

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