Porque Lula tem que se reeleger


A democracia e soberania em risco na América Latina. Porque Lula tem que se reeleger

O ano de 2026 inicia com muitos desafios para a governabilidade de Lula. O processo eleitoral brasileiro começa a bater nas portas e a conjuntura geopolítica de crise global do capitalismo com tensões, guerras, confrontos e tentativas de colonização por parte do governo americano de Trump com o recente e violento sequestro do presidente Maduro da Venezuela, as ameaças de ocupação da Groenlândia, numa evidente tentativa desesperada de impor uma nova ordem sob seu domínio, tem o claro objetivo de fazer frente à ascensão de potências como a China e a Rússia, com a sua unificação reforçando o chamado Sul Global que, sob o comando do BRICs, desempenham tarefa fundamental na articulação política, econômica e exercem influência no desenvolvimento de países pobres da Ásia, África e América Latina. Lula neste processo desempenha um papel importante de articulador e negociador preocupado com o mundo, mas, acima de tudo pensando no crescimento do Brasil, com ton nacionalista, o que explica suas declarações de independência e não alinhamento às grandes potências.

Os problemas do Brasil são das dimensões do país. Viemos de uma base de desmonte do país desde Collor de Mello, passando pelo FHC com o mais covarde dos planos contra o país: privatizou várias estatais, inclusive a Vale do Rio Doce; acabou com o controle do Estado sobre a “conta capital” que controlava as transferências de capital e ativos do país, colocando o país numa situação de profunda vulnerabilidade. A China por exemplo tem como um dos pilares do seu desenvolvimento o controle dos bancos que são estatais e da conta de capital.

Desde a tentativa de golpe do 8 de janeiro em 2023 pela extrema direita bolsonarista, a frágil democracia brasileira continua sob o ataque da elite dominante entreguista, ligada claramente à oligarquia e ao poder concentrado das finanças internacionais dos EUA. A chamada democracia ocidental está em crise, ou seja, a democracia parlamentar que é na que se resume o sistema capitalista, sem democracia popular e participativa. O poder Executivo de Lula, enfrenta a luta num ambiente tóxico dentro do parlamento brasileiro financiado por grupos econômicos e de composição de centro e extrema direita. Este déficit do governo atual frente ao Congresso, coloca na ordem do dia de 2026, concentrar o maior esforço em eleger deputados e senadores do PT e dos setores progressistas e do centro-esquerda.

A democracia popular e participativa, é a que deveria existir e ser estimulada pela liderança de esquerda porque permite que a sociedade discuta sobre questões sociais fundamentais do seu dia a dia como o orçamento participativo, o direito à moradia, acesso ao sistema de saúde e porque permite avançar em projetos importantes melhorando a distribuição de renda, na taxação dos milionários e possibilitar a luta dos trabalhadores em conquistar seus direitos já assegurados pela Constituição. Portanto, combater os projetos autoritários da elite que já articula uma campanha para fragilizar a democracia com a produção de fake news, denúncias sem provas, contra o governo e o STF, é tarefa dos movimentos sociais, dos sindicatos e essencialmente do Partido dos Trabalhadores, que devem retomar as organizações sociais de base para fortalecer o Partido e o governo Lula.

Não obstante, O balanço do governo Lula é positivo tendo em vista o país ter passado 6 anos (Temer e Bolsonaro) de desmonte da economia, do Estado e das políticas públicas. Lula encerrará seu mandato em 2026 com importantes avanços na economia; o crescimento anual médio do PIB de 4,05%, segundo dados do Instituto de Economia da Unicamp, superior à média mundial que foi de 2,73%. Políticas públicas em alta como o registro de menor índice de desemprego, 6,4% a menor taxa desde 2011 segundo dados do IBGE, alta expressiva na renda média dos brasileiros e ascensão nos projetos de desenvolvimento nas áreas da educação, saúde e moradia, medidas que priorizaram a população mais vulnerável do país.

Lula construiu uma equipe qualificada e experiente nos ministérios estratégicos, que serviu como instrumento para seu governo romper com a espinha dorsal da necropolítica dos governos anteriores causante de lesões sociais com as milhares de mortes por Covid-19, fome, miséria, desemprego, sem-tetos e famintos na fila do osso. Há, certamente, muitas críticas em relação às altas taxas de juros que freiam o desenvolvimento do país, mas o jogo neste campo é pesado. Provavelmente haverá uma pequena queda das taxas de juros da Selic quando aproximar o pleito eleitoral. Lula tem encarado com muita firmeza as apurações tanto do golpe contra os aposentados do INSS e do setor bancário, como com o escândalo do Banco Master ao defender punição de quem tiver culpa no cartório.

Enfim, os dados não deixam de ser favoráveis ao governo: reajuste do valor do salário mínimo acima da inflação; menores taxas de desemprego; balança comercial positiva; implementação de programas para a agricultura familiar como o do “Programa de abastecimento” (*) em Minas Gerais; programa gás para todos; programa bolsa família; programa desenrola; recordes na produção de alimentos, mesmo que seja pelo agronegócio que concentra renda e terras no país – situação que teremos que resolver quando a situação permitir; a bolsa de valores atingindo recordes, lógico que nem sempre na produção e parte para especulação, situação também a resolver. Certamente, há que acelerar medidas estruturais como as re-estatizações na área da Eletrobrás, da Vale do Rio Doce e da distribuição petroleira.

Há que impulsionar este Lula disposto a ir à luta, a ganhar tempo e presidir outros 4 anos para poder avançar no projeto de transformações sociais, que o façam saltar de um governo de coalisão, a um governo popular e revolucionário.  É sem dúvidas, um Lula com uma capacidade de comunicação e diálogo com o povo; que está apto para seguir o exemplo de Claudia Sheinbaum e Lopez Obrador; que não deixou de usar a TV-Gov e os meios públicos e defender a necessidade das inovações cibernéticas da nova era digital. Até os seguidores da igreja pentecostal de direita são por ele chamados ao debate e à reflexão.

Não é irrelevante um poder Judiciário no Brasil (STF) com a maioria de juízes que reverteram o golpe, que se põe ao lado de um governo que coloca em questão as emendas parlamentares, questiona o teto do funcionalismo público junto a um governo que busca combater um dos maiores males do país, o tráfico de drogas e o crime organizado; e que tem um juiz Flávio Dino que intervém contra a privatização da Celepar no Paraná. Não é casual que o “lawfare” acionado pelo juiz Moro contra Lula, se acione contra juízes constitucionalistas do STF. Não é casual a provocação que o governo e a polícia bolsonarista do Rio de Janeiro, em conluio com o narco-tráfico, tentou fazer no massacre no complexo do Alemão contra as Forças de segurança federais.

A ameaça da soberania brasileira vem por meio de pressões dos EUA na mesma forma e condições que em outros países como o México, Colômbia e Venezuela, pelo governo Trump, impondo significativas mudanças internas na política exterior do governo venezuelano, como o controle das industrias petroleiras e barrando o fornecimento de petróleo aos antigos e fiéis parceiros como Cuba. A Ilha é hoje uma vítima em potencial, onde a perversidade das sanções de Trump atingiram seu ponto mais alto impedindo a chegada de ajuda humanitária e de petróleo fornecidos principalmente pela Venezuela por meio da PDVSA, e México pela PAMEX.  A bela e pequena Ilha cujo farol sempre iluminou a América Latina, exemplo de solidariedade ao exportar para o mundo médicos cubanos, hoje vive uma das piores crises energéticas provocadas pela criminosa política do imperialismo. Cuba, neste momento, tem sido abastecida pela Rússia que acabou de se tornar o principal e maior fornecedor de petróleo e combustível além da ajuda humanitária.

Lula negociou, mas não se ajoelhou diante da maior potência nuclear e econômica da América; resistiu  às pressões impostas pelo tarifaço, à diferença dos políticos burgueses como Tarcísio de Freitas e a família bolsonarista que aplaudiram a decisão de Trump. Querendo ou não o Brasil acabou se saindo bem da armadilha das tarifas de Trump. Saiu com um saldo político positivo. Vão dizer que entregamos muito mais que recebemos, mas há que analisar se é isto mesmo. O Brasil diversificou as exportações, e como dito anteriormente; aprofundou as relações comerciais com a China e a Rússia; assinou um acordo com a União Européia que ainda não entrou em vigor, e que a priori, não favorece a tão desejada reindustrialização do país, com a taxa de juros exorbitante.

Mas, em síntese, a China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Além da cobiça dos EUA às riquezas naturais do Brasil, o que mais lhe incomoda é a relação com a China que possui uma presença econômica significativa no Brasil, concentrada em setores estratégicos como energia, infraestrutura e mineração tecnológica. Leia mais detalhes sobre os acordos bilaterais com a China, no artigo publicado no nosso Batalha de Ideias. A orientação do governo nas parcerias internacionais trata de preservar a soberania econômica nacional. Ou seja, a linha tem sido incorporar novas tecnologias para desenvolver a indústria nacional, como tem feito na criação de máquinas agrícolas, junto ao desenvolvimento da agroecologia sem venenos.

Ou seja, não se trata da linha de governos fascistas como Milei que, “atacam contra o comunismo”, mas importam pneus mais baratos da China, derrubando a indústria nacional (FATE) com demissão total de 950 trabalhadores argentinos, no mesmo momento em que impõe uma nova Lei Trabalhista escravista (Leia artigo). O Brasil não fala só em importar.  Fala-se em “joint ventures”, inclusive no campo das terras raras, ou seja, parcerias de empresas chinesas com nacionais para contribuir na re-industrialização do país.

A participação do Brasil no BRICS tem aberto muitas portas nesse processo de integração com a China e também a Rússia. Com Dilma Rousseff, presidenta do NBD (Banco do BRICS). A criação do Brics Pay, sem ser uma moeda única, possibilita transações bancárias entre os países membros, sem passar pelo dólar.

Acordos comerciais se estão estabelecendo também com outros países da América Latina, não membro do BRICs, mas da CELAC, como o México de Claudia Sheinbaum onde chegará uma delegação empresarial brasileira. É verdade que o Brasil cometeu um erro na política exterior ao não reconhecer a eleição do presidente Nicolás Maduro e a entrada da Venezuela no BRICS. Mas, frente à agressão imperialista dos EUA, Lula condenou o sequestro de Maduro e da esposa e deputada Cilia Flores, e defendeu a soberania do povo venezuelano. Não aderiu ao Fórum, ou melhor, à Junta pela Paz de Trump com o argumento de ser incoerente chamar a paz sem a presença dos palestinos.

O exercício da democracia participativa, das mobilizações populares nas ruas, nos bairros, universidades e fábricas de onde surgiu um presidente Lula, operário, sindicalista (tal qual na Escola de Samba de Niterói), torna-se fundamental nos tempos de grande convulsão mundial e ameaças das forças conservadoras para desestabilizar governos progressistas. Nos 46 anos do PT, Lula convoca a militância para a guerra comunicacional da verdade contra a mentira. Diz que essa campanha de 2026 exige uma reconexão do PT com as pessoas, no corpo a corpo. “PT tem que ouvir periferias.”

Comitê Editorial
PosadistasHoje
24/02/2026

(*) Combinação de três programas do Governo Federal, para apoiar a agricultura familiar e ao mesmo tempo, entregar alimentos para a população em insegurança alimentar através da mobilização das comunidades, principalmente na periféria, através das Cozinhas Solidárias. A Conab fez uma parceria com o Banco de Alimentos da Ceasa Minas para armazenar os alimentos que estão sendo fornecidos pelos agricultores de Minas Gerais e de outros estados da federação. Estes programas são fruto das políticas governamentais do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate a Fome e do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Reforma Agrária e Agricultura Familiar. A Conab está entregando junto com o MDS arroz do Programa Arroz da Gente que busca descentralizar a produção de arroz em comunidades que tradicionalmente produziam arroz. São entregues arroz, feijão, farinha, fuba, melado, polpa de fruta, banana desidratada, com previsão de chegada de leite em pó. A CONAB e a Ceasa Minas e o MDS, junto com o Banco de Alimentos, compõem os três programas: “Arroz da Gente”, Programa PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), Programa Cozinha Solidária. Recentemente, estas entidades estão destinando, inclusive cestas básicas, para a região da Zona da Mata em Minas Gerais atingida pelas fortes chuvas que vitimaram dezenas de pessoas.

Foto destaque: Lula no 46 aniversário do PT (Crédito: Ricardo Stuckert)

 

 

 

 

 

 

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