Nas urnas brasileiras a sombra dos EUA e de Tel Aviv


Nas urnas brasileiras a sombra dos EUA e de Tel Aviv

Do Blog Marco Consolo

27/09/2026

O primeiro turno das eleições gerais do Brasil ocorrerá em 4 de outubro, com um provável segundo turno em 25 de outubro. Os eleitores escolherão a totalidade da Câmara dos Deputados, dois terços do Senado e as assembleias legislativas estaduais. Simultaneamente, serão eleitos o Presidente da República e os governadores estaduais; para esses dois cargos, haverá segundo turno três semanas depois, caso nenhum candidato obtenha mais de 50% dos votos.

Em meio a um clima de incerteza, o destino do último grande reduto progressista do Cone Sul está em jogo.

Luiz Inácio Lula da Silva lidera as pesquisas presidenciais com 38% das intenções de voto, buscando um quarto mandato não consecutivo. Logo atrás, aparece o senador de extrema-direita Flávio Bolsonaro, com 33%. Flávio é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe após sua derrota eleitoral em 2023. Trata-se de um sobrenome de enorme peso que — apesar da tentativa de golpe — continua a atrair uma parcela significativa do eleitorado. Esse dado suscita reflexão, especialmente diante das divisões internas no campo da direita, que não o apoia em bloco — pelo menos não no primeiro turno.

Por sua vez, o presidente Lula conta com o apoio de uma ampla coalizão de partidos de esquerda, centro-esquerda e centro. No campo da esquerda, destaca-se a “Federação Brasil da Esperança” — aliança que reúne o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Verde (PV) —, além do apoio do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e da Rede Sustentabilidade (REDE).

A acirrada campanha eleitoral desenrolou-se em meio a um clima político volátil, marcado por acusações mútuas de corrupção que envolviam até mesmo ministros do Supremo Tribunal Federal e o próprio Flávio Bolsonaro. Este último é investigado por evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção no caso “Dark Horse” — nome inspirado no filme sobre seu pai, Jair, que teria sido financiado com recursos de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Máster, preso por fraude financeira [i] .

Vale lembrar que, em 2017, os Estados Unidos haviam exercido pressão — nos bastidores — para garantir a prisão de Lula (removendo-o, assim, do cenário político brasileiro) e abrir caminho para a eleição de Jair Bolsonaro. Em contrapartida, a administração Trump agora apoia abertamente a eleição do filho, cortejando a direita brasileira para que desempenhe o papel que lhe foi atribuído: o de vender o próprio país em benefício de interesses particulares.

E em 1962…

Esta não é a primeira vez que Washington interfere nas eleições brasileiras, e é pouco provável que seja a última.

Já em 1962, o governo Kennedy estava disposto a tudo para garantir a derrota do presidente progressista João Goulart, numa tentativa de combater a suposta “ameaça comunista” em uma região que os Estados Unidos há muito consideram seu próprio “quintal”. Segundo historiadores, antes da votação, a CIA e o Departamento de Estado repassaram secretamente milhões de dólares a candidatos da oposição e a grupos encarregados de disseminar propaganda de direita e fomentar a instabilidade.

Naquela época, a CIA ajudou a financiar o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, que canalizou ilegalmente recursos para as campanhas eleitorais de centenas de parlamentares e oito candidatos a governador. O objetivo era criar uma forte oposição parlamentar, bloquear iniciativas do governo e abrir caminho para um golpe de Estado. Outro grupo financiado pelos EUA, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, foi utilizado para desestabilizar o governo Goulart ao financiar propaganda anticomunista e protestos antigovernamentais.

É difícil não perceber paralelos entre a maneira como Washington buscou enfraquecer o governo Goulart no início da década de 1960 — financiando seus opositores e cortando empréstimos — e o uso de tarifas por Trump para sabotar a campanha de Lula. Tanto naquela época quanto agora, o governo dos EUA estava “determinado a fazer todo o possível para enfraquecer o governo” no Brasil. Mais de seis décadas após a tomada do poder pela ditadura civil-militar apoiada pelos EUA em 1964, há sérias preocupações de que a história esteja se repetindo às vésperas desta eleição.

No entanto, existe uma diferença fundamental entre aquele momento e o atual. A campanha de 1962 foi conduzida de forma encoberta pelos Estados Unidos, justamente porque a CIA sabia que haveria uma reação negativa da opinião pública brasileira caso se soubesse que os EUA estavam financiando determinados candidatos. Hoje, em contrapartida, o governo Trump age abertamente e em uma escala incomparavelmente maior.

Alertas dos serviços de inteligência e do PT

Mais uma vez, a figura onipresente e ameaçadora que paira ao fundo é Washington. A menos de um mês das eleições, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) enviou um relatório ao governo, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral, alertando que a probabilidade de interferência dos EUA no processo eleitoral havia atingido um “nível crítico”. Segundo o relatório — publicado inicialmente pela *Folha de S.Paulo* —, o objetivo é “reduzir a influência de potências rivais aos Estados Unidos na América Latina e impedir-lhes o acesso a ativos estratégicos, recursos naturais e infraestrutura na região, em favor do controle direto ou indireto pelo governo dos EUA ou pelo capital privado norte-americano” [ii]. O documento aponta o senador norte-americano Marco Rubio como uma figura central nessa estratégia regional de fortalecer governos conservadores alinhados a Washington e conter a influência chinesa na América Latina.

Com base nesse relatório, o Partido dos Trabalhadores (PT) acaba de solicitar ao ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino a abertura de uma investigação urgente para proteger o processo eleitoral brasileiro contra possíveis interferências estrangeiras destinadas a impulsionar a candidatura de Jair Bolsonaro. Segundo o partido de Lula, há indícios de pressões políticas, econômicas e digitais. O pedido de investigação cita sanções contra autoridades brasileiras, tarifas norte-americanas e ações voltadas a desacreditar o sistema eleitoral, além de destacar o possível financiamento ilegal da campanha de Bolsonaro pelo grupo conservador norte-americano Rockbridge Network [iii]

A Guerra Híbrida e a Doutrina “Donroe”

Na guerra híbrida em curso contra o governo Lula e sua candidatura, a administração Trump alcançou objetivos explícitos: o aumento de tarifas; a classificação das organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho como organizações terroristas; sanções contra certas autoridades; e o envio de representantes para lançar dúvidas sobre as pesquisas de opinião.

Sem dúvida, o resultado da eleição não apenas determinará o futuro do país, mas também impactará o cenário político regional (e além dele). Trata-se de um processo eleitoral fortemente influenciado por dinâmicas internacionais e pela aplicação da Doutrina “Donroe” em todo o continente.

Esta é uma região onde aliados latino-americanos de Trump (de direita e extrema-direita) venceram eleições em meio a alegações de fraude e interferência política, judicial, econômica e militar por parte de Washington. Testemunhamos tais retrocessos democráticos em eleições em Honduras, Colômbia, Peru e Argentina. Esses resultados são frequentemente decididos por uma margem estreitíssima em segundos turnos, em meio a campanhas de desinformação alimentadas por fábricas de bots da extrema-direita — campanhas que envolvem figuras como o argentino Fernando Cerimedo, um de seus operadores, que foi recentemente preso na Bolívia sob a acusação de tentativa de feminicídio.

Guerra Comercial e Militarização Continental

Ao longo dos anos da administração Lula, a pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil tem sido constante. Na esfera econômica, sanções comerciais foram impostas por meio do aumento de tarifas sobre importações brasileiras. No âmbito judicial, Trump contestou a decisão do Supremo Tribunal Federal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por conspirar na tentativa de golpe de 2023 — uma demonstração explícita de apoio ao bolsonarismo e, por extensão, ao próprio golpe. A crise diplomática entre as duas nações intensificou-se quando Trump decidiu revogar o visto do embaixador do Brasil em Washington, alegando demora no reconhecimento do deputado republicano da Flórida, Daniel Perez, como embaixador dos EUA. Essa medida sem precedentes — somada às demais ações — acendeu um sinal de alerta no Palácio do Planalto.

Paralelamente a essa “guerra comercial”, a presença militar dos EUA vem se expandindo por vários países da região, a começar pela iniciativa “Escudo das Américas” [iv] que conta com o apoio de mais de 15 governos latino-americanos. Somam-se a isso a “Coalizão contra os Cartéis das Américas” e a conferência sobre o “Ressurgimento do Terrorismo Político” — instrumentos de militarização e controle ideológico liderados pelos EUA, concebidos para combater supostas ameaças de “narcoterrorismo”.

Nesse cenário, uma vitória de Lula não seria bem-vista pela Casa Branca e poderia levar a um aumento das tensões — especialmente considerando o precedente da eleição de 2022, quando o movimento bolsonarista tentou um golpe após se recusar a aceitar os resultados. Essa tentativa fracassou porque uma parcela dos militares não aderiu a ela — uma decisão motivada por uma avaliação pragmática das chances de sucesso do golpe, e certamente não por princípios ou convicções democráticas. Um fator crucial nesse cálculo foi a postura dos Estados Unidos; sob a gestão Biden, os EUA insistiram no respeito aos resultados eleitorais em todas as etapas, inclusive antes da realização da votação. Hoje, o contexto é diferente.

Flávio Bolsonaro já prometeu os minerais críticos do país a Washington, chegando a detalhar isso em uma plataforma eleitoral redigida em inglês: “O Brasil é a solução para garantir que os Estados Unidos não dependam mais da China para obter elementos de terras raras e minerais críticos”, afirmou o candidato em um evento no Texas. O filho mais velho de Jair Bolsonaro também pediu a outras nações que monitorassem as eleições brasileiras e “exercessem pressão diplomática para garantir que nossas instituições funcionem adequadamente” [v].

O Sionismo apoia Bolsonaro

Nos últimos meses, consolidou-se o apoio político da extrema-direita internacional a Flávio Bolsonaro. Em maio, em plena campanha eleitoral, ele se reuniu com Trump em Washington. Em 25 de julho, o israelense Netanyahu enviou uma mensagem em vídeo de apoio à convenção do Partido Liberal (PL) — evento que oficializou a candidatura e contou também com a presença do presidente argentino Javier Milei.

O apoio e a afinidade da família Bolsonaro com Israel não são novidade. Outro filho, Eduardo — não satisfeito em apenas usar camisetas do Mossad [vi]—, publicou uma charge em sua conta no Instagram, em maio de 2018, que, segundo ele, ilustrava a diferença entre israelenses e palestinos. A imagem retratava um soldado israelense protegendo uma mulher e uma criança, enquanto um combatente palestino aparecia escondido atrás de uma mulher [vii]

Em janeiro de 2026, Flávio Bolsonaro visitou Israel, onde sinalizou a orientação de sua política externa — fundamentada em valores judaico-cristãos. Em 28 de agosto, ele anunciou o primeiro futuro integrante de sua gestão: Cláudio Lottenberg como Ministro da Saúde. Em 2024, Lottenberg havia acusado Lula de incitar o ódio contra Israel, depois que o presidente descreveu os ataques a Gaza como “genocídio”. Lottenberg já presidiu a Confederação Israelita do Brasil (CONIB) e foi vice-presidente do Congresso Judaico Mundial; atualmente, atua como assessor especial do presidente do Congresso Judaico Latino-Americano.

Flávio já havia dado indícios dessa postura. Em Jerusalém, classificou Lula como “antissemita” e descreveu as ações dos EUA como um “novo modelo de cooperação internacional”. Também se comprometeu a transferir a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém e a aderir aos Acordos de Isaac — uma iniciativa defendida por Milei e Netanyahu. Não é coincidência, portanto, que as bandeiras de Israel e dos EUA estejam quase sempre presentes nos comícios de campanha de Flávio Bolsonaro.

O sionismo e os evangélicos brasileiros

Um fator significativo é a profunda mudança religiosa ocorrida na América Latina nas últimas décadas, marcada pelo crescimento e pela consolidação de diversas comunidades evangélicas [viii] que, em geral, seguem o modelo norte-americano e adotam políticas pró-Israel.

Na região, esses elementos religiosos vêm acompanhados de um rápido aumento de sua influência e do apoio a uma agenda que — pelo menos desde 2009 — se alinha à visão de mundo das coalizões de direita que governam Israel.

No Brasil, o impacto dessas redes — e seu acesso ao poder político — reforçou seu apoio ao sionismo. Vale ressaltar que os eleitores evangélicos representam cerca de um quarto do eleitorado; eles estão presentes em todo o país e controlam veículos de comunicação poderosos. Um exemplo notável é a TV Record, de propriedade de Edir Macedo — fundador da Igreja Universal do Reino de Deus —, uma emissora nacional com programação de interesse geral voltada para um público amplo. Atualmente, é a terceira maior rede do Brasil em número de afiliadas (atrás da Globo) e a segunda maior em termos de audiência [ix].

Não é coincidência, portanto, que, durante uma visita da família Bolsonaro a Israel, o pai, Jair — que é católico —, e seus filhos tenham chegado a ser batizados no Rio Jordão por um pastor evangélico: são símbolos que dizem muito, muito mais do que qualquer manifesto eleitoral.

Para concluir

No gigante brasileiro, a Doutrina “Donroe”e cruza-se com minerais de terras raras, tarifas e as urnas, com o segundo turno ocorrendo poucos dias antes das eleições de meio de mandato nos EUA, em 3 de novembro. O desfecho no Brasil penderá a balança política em todo o continente e no equilíbrio global de poder (basta considerar o BRICS, por exemplo). Indiretamente, também influenciará — entre outras coisas — a natureza do restante do mandato de Donald Trump na Casa Branca. Enquanto isso, a sombra de Washington e Tel Aviv paira sobre as eleições brasileiras.

[i] https://latfem.org/brasil-el-futuro-del-pais-y-de-la-region-o-lula-contra-el-mundo/

[ii] https://www.ambito.com/mundo/inteligencia-brasil-alerto-un-riesgo-critico-interferencia-eeuu-las-elecciones-n6324523

[iii] https://www.telesurtv.net/brasil-pt-investigar-injerencia-elecciones/

[iv] https://marcoconsolo.altervista.org/scudo-delle-americhe-la-retroguardia-servile-nella-regione/

[v] https://www.metropoles.com/brasil/fala-de-flavio-bolsonaro-nos-eua-sobre-terras-raras-revolta-a-esquerda

[vi] https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/imagen-de-los-hijos-de-bolsonaro-con-camisetas-de-fdi-y-del-mossad-se-ha-vuelto-viral/

[vii] Ibidem

[viii]  Recentemente, o termo “evangélico” — sobretudo no âmbito da língua inglesa — tem sido adotado por alguns movimentos protestantes para se diferenciarem e se oporem a um cristianismo denominado “liberal”. Assim, fala-se em *evangelicals* para se referir a um movimento transdenominacional que, ao não se identificar com nenhuma igreja em particular, reúne todos aqueles que se sentem unidos por uma interpretação frequentemente literalista da Bíblia, defendem a sua infalibilidade — isto é, a impossibilidade de conter erros —, enfatizam a necessidade de uma conversão pessoal ou “novo nascimento” e a prioridade da evangelização, e propõem uma ética baseada em valores morais conservadores. Portanto, é muito fácil confundir ambas as definições e falar de maneira confusa e inapropriada sobre igrejas evangélicas e movimentos *evangelicals*.

https://www.nev.it/nev/2020/05/07/scheda-protestanti-evangelici-evangelicals/

[ix] «SBT bate Record pela quinto mês seguido como segunda maior audiência da TV – Emais».

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